Ímã

2 set

Já são duas horas e a ponta da caneta se aproxima e se afasta da linha do papel como a força incógnita de um ímã. Não sabia sequer rabiscar o bem estar magnético que sentira. Passara-se trinta minutos de relutância com o papel… Pra quê registrar a força entre os pólos? Não entendera porque perdia tempo ali, como se escrever trouxesse as minúcias do momento vivido de antemão. Estava sendo ou era? Mas antes mesmo que pensasse julgar, as expectativas ganhavam voz e espaço. “Ahh!” E jogou a caneta na mesa cortando o silêncio do quarto com pensamento em reticências.

 

Bruno não era mesmo a pessoa de riso fácil, como quem foge do espelho, do reflexo, de si mesmo. Mas aquele riso dando trégua ao hiato a incomodava, a fazia persistir. “Por que o sorriso?” – perguntou-se insistentemente. Por que aqueles olhos a convidava se sua boca se restringiu à breve e côncava fresta? Nada lhe tiraria da cabeça de que era seu escopo naquele momento. Virou ligeiramente a cabeça para os lados à procura do ladrão que o arrancara de sua face e, em vão, encontrou a si mesma refletida na vidraça. Encontrou-o. Roubando-lhe outro. Um estado de paz.

 

Retornou rosto, agora com os olhos baixos, à direção de Bruno, já não tão distante. “Provei.” – pensou. Mesmo sem ter que provar da bebida barata, cujo rótulo cai célere como a folha com os ventos no outono. Nem mesmo ventava. E ela se deteve em si, permanecendo assim sem arriscar uma brusca palavra que mudasse o curso do que entendera ali. Não conseguia medir sua própria dimensão, estava maior do que era, só não tão grande quanto o sorriso silencioso.

Vivera a mesma cena inúmeras vezes do caminho de casa à beira da cama. E o quarto ainda que em surdina ecoava-lhe as perguntas multiplicando as incontáveis vezes que as fizera a si mesma. Encontrara então o que procurava? Perguntara-se também. Mas como definir tão sutilmente o magnetismo entre pólos opostos? Como explicar a invisível força, sem histórico, sem uma palavra, que mesmo separada sob uma folha de papel une ímã e metal? Não sabia.

 

Não sabia sequer se foi a melhor escolha, mas a sensação era boa. Como se o coração quisesse dilacerar-lhe o seio e sair pra viver fora de um corpo que não lhe cabia mais. Não cabia mais no momento. A intensidade não durou pra sempre, mas fora simples suficiente para que a tornasse viva… Mas no fundo ela sabia, intensidade e vida também é momento.

 

Milene Loiza de Sousa

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Uma resposta to “Ímã”

  1. João Mamesdes setembro 2, 2011 às 9:52 pm #

    Sem muito que dizer, o próprio título é um julgamento de sua escrita, um imã – me senti atraído até a última linha. Belo texto, sutil, sem vícios, dominadora. Não pare de escrever, você amedronta no que faz, e como bem faz. Abraço.

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