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Cada parte

20 set

Tenho questionado meus díspares estados de espírito. O pouco que tenho sido em todas as coisas e que me torna completa. Completa faltando tudo, já que nem tudo posso carregar. Vou me deixando pelos caminhos, embora as vezes eu queira trazer uma parte.

 

As vez sou uma ferida que arde. Recém aberta, que lateja e mesmo que insignificante a dor, depois deixa marcas.

 

As vezes sou um vento que suga o calor úmido das roupas no varal, que as dou forma quando parte de mim se perde em suas reentrâncias.

As vezes sou um pouco varal, deixo que sequem por um fio, mas não posso segurar nada que for leve demais e não possua um pregador.

As vezes sou uma poça d’água que restou do chuvisco. Que se espalha com as pisadas, mas que não seca se não houver sol.

As vezes sou contínua, sem fim. Noutras meus pensamentos dão me deixam sê-la. Há sempre a mudança.

 

Milene Loiza de Sousa

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Entre aspas

7 set

Pouco de sua voz me vem à memória. O pouco forçado, que o combate às minhas falhas fisiológicas e fracas não me deixam lembrá-la por completo. Temo não lembrá-la nunca, ou pior, jamais ouvi-la outra vez.  Mas toda vez que tento, também temo que a sua parcela sonora se dissipe na minha. Deixando de ser sua para se tornar nossa. E isso me dá medo.

Sem muito esforço me vem à cabeça a dedicatória do livro que começara hoje a tarde, cujas palavras foram tomadas de Caio Fernando de Abreu sem aspas:

“Eu quis tanto ser a tua paz, quis tanto que você fosse o meu encontro. Quis tanto dar, tanto receber. Quis precisar, sem exigências. E sem solicitações, aceitar o que me era dado. Sem ir além, compreende? Não queria pedir mais do que você tinha, assim como eu não daria mais do que dispunha, por limitação humana. Mas o que tinha, era seu. ”

E realmente o era.

Milene Loiza de Sousa

Ímã

2 set

Já são duas horas e a ponta da caneta se aproxima e se afasta da linha do papel como a força incógnita de um ímã. Não sabia sequer rabiscar o bem estar magnético que sentira. Passara-se trinta minutos de relutância com o papel… Pra quê registrar a força entre os pólos? Não entendera porque perdia tempo ali, como se escrever trouxesse as minúcias do momento vivido de antemão. Estava sendo ou era? Mas antes mesmo que pensasse julgar, as expectativas ganhavam voz e espaço. “Ahh!” E jogou a caneta na mesa cortando o silêncio do quarto com pensamento em reticências.

 

Bruno não era mesmo a pessoa de riso fácil, como quem foge do espelho, do reflexo, de si mesmo. Mas aquele riso dando trégua ao hiato a incomodava, a fazia persistir. “Por que o sorriso?” – perguntou-se insistentemente. Por que aqueles olhos a convidava se sua boca se restringiu à breve e côncava fresta? Nada lhe tiraria da cabeça de que era seu escopo naquele momento. Virou ligeiramente a cabeça para os lados à procura do ladrão que o arrancara de sua face e, em vão, encontrou a si mesma refletida na vidraça. Encontrou-o. Roubando-lhe outro. Um estado de paz.

 

Retornou rosto, agora com os olhos baixos, à direção de Bruno, já não tão distante. “Provei.” – pensou. Mesmo sem ter que provar da bebida barata, cujo rótulo cai célere como a folha com os ventos no outono. Nem mesmo ventava. E ela se deteve em si, permanecendo assim sem arriscar uma brusca palavra que mudasse o curso do que entendera ali. Não conseguia medir sua própria dimensão, estava maior do que era, só não tão grande quanto o sorriso silencioso.

Vivera a mesma cena inúmeras vezes do caminho de casa à beira da cama. E o quarto ainda que em surdina ecoava-lhe as perguntas multiplicando as incontáveis vezes que as fizera a si mesma. Encontrara então o que procurava? Perguntara-se também. Mas como definir tão sutilmente o magnetismo entre pólos opostos? Como explicar a invisível força, sem histórico, sem uma palavra, que mesmo separada sob uma folha de papel une ímã e metal? Não sabia.

 

Não sabia sequer se foi a melhor escolha, mas a sensação era boa. Como se o coração quisesse dilacerar-lhe o seio e sair pra viver fora de um corpo que não lhe cabia mais. Não cabia mais no momento. A intensidade não durou pra sempre, mas fora simples suficiente para que a tornasse viva… Mas no fundo ela sabia, intensidade e vida também é momento.

 

Milene Loiza de Sousa

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Caos urbano inspira o Verão 2012 da grife carioca! 

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“Para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo agora, aqueles que nunca bocejam e jamais falam chavões, mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício explodindo como constelações em cujo centro fervilhante – pop! – pode-se ver um brilho azul e intenso até que todos ‘aaaaaaah!”

Jack Kerouac