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Semiótica e suas conexões com a Moda

5 fev

Por Andrey Alex Biz e Milene L. de Sousa

Considerando que a Semiótica é a ciência do significado vê-se a utilidade dela na moda, pois cada signo presente em uma peça do vestuário vem com a intenção de transmitir algum sentimento ou mensagem. A moda utiliza-se mais da linguagem não verbal e também das relações entre os elementos da Semiótica em questões semântica e pragmática individual, bem como coletiva. O protótipo da Bolsa Carteira confeccionado em material reaproveitado, no caso, preservativos que não passaram no controle de qualidade, que foram apreendidos em contrabando ou ainda que passaram da data de validade, vêm não só denotar a importância da preocupação ecológica com o descarte de materiais de difícil decomposição, já que o preservativo demora cerca de 300 anos para se decompor, mas também a conscientização através da naturalização do material (quebrando um conceito ruim que as pessoas fazem, ligando-o apenas a um material erótico) na prevenção de doenças sexualmente transmissíveis, principalmente a AIDS.

Palavras-chave: Preservação. Semiótica. Moda. Materiais alternativos. Camisinha.

 

INTRODUÇÃO

Para Fiorin e Savioli (1996), tanto a linguagem verbal quanto a não-verbal estão presentes na Semiótica por apresentarem significado e utilizar-se de Signos. A linguagem verbal utiliza-se de sons da fala, palavras, uma união de elementos que seguem regras, como por exemplo, uma ordem linear obedecendo a uma seqüência lógica. Os Signos da linguagem não-verbal constituem-se de tamanho, forma, cor, obedecendo a uma relação formal que pode acontecer ao mesmo tempo, sem uma seqüência lógica linear, porém, sem prejudicar a compreensão. Por exemplo, a descrição de um momento estático, diferenciando-se da Verbal que segue uma forma narrativa. Em alguns casos os dois tipos de linguagem são apresentados ao mesmo tempo, como numa peça teatral, e essa associação das linguagens torna mais fácil a compreensão do conteúdo da peça.

Peirce, segundo Coelho Netto (1980), procura introduzir estes dois aspectos lingüísticos na teoria Semiótica americana, que utiliza do pragmatismo diferenciando-se da Semiologia proposta por estudiosos europeus que ao aterem-se apenas ao Significante e ao Significado e não utilizarem o Interpretante em sua linha de pensamento restringe o campo de atuação dessa ciência. Para ele, a Semiótica teve origem no século XIX e antes de se chegar ao modelo de Semiótica da escola americana, hoje seguida, houve outras correntes.

A Semiótica de Peirce, também se relaciona com a Psicologia, pois criar significados através dos signos objetos em nível semântico e pragmático é propriedade mental individual, mas que também absorve com grande profusão regras culturais. Essa tendência de sempre tentar desvendar o significado dos signos é uma busca quase que inconsciente pela verdade que Peirce define como a passagem de um estado de insatisfação para um estado de satisfação. Peirce também reconheceu que a Semiótica é sinônimo de Lógica, Signo relacionado a um Interpretante, gera uma relação causal de aspecto pragmático, ou seja, de uso que pode decorrer da necessidade imediata que o indivíduo possa ter.

VINCULOS DA SEMIÓTICA

Na teoria Semiótica, Signo constitui-se por uma representação, uma raiz que substitui outra, a sua relação com o Interpretante é causal e a Signo com o objeto, em alguns casos pode não haver relações pertinentes entre eles, estes três elementos compõem a Relação Triádica. A Semiótica é dividida em três vertentes: Gramática pura, que se relaciona ao que é verdadeiro e outro significado que esse Signo possa transmitir; Lógica em si, estuda o que é verdadeiro quando relaciona-se com o Signo aplicado ao Objeto; Retórica pura, trata-se do estudo das leis em que um signo origina outro. Podemos dividir a Relação Triádica em Signo em si mesmo, Signo e Objeto e Signo e Interpretante.

Quando nos referimos ao Signo em si mesmo, encontramos: o Qualissígno que ocorre quando a qualidade é um Signo; o sinsígno representa tamanho, forma tomada em análise; e o Legissígno, que se caracteriza pelas leis ou convenções feitas pelo homem, como as palavras.

Analisando a fotografia acima, o Qualissígno está presente na leveza, beleza, minimalismo, alvura dos vestidos; podemos exemplificar o sinsígno no comprimento dos vestidos, no decote, plissados e recortes existentes; outro fator é o de a foto ser tirada de uma revista que contém a entrevista da atriz que utiliza o vestido, se estivesse representado de forma inteiriça na foto, de modo que tornassem visíveis e interpretáveis essas palavras, poderia considerar-se incluso o Legissígno.

Ao nos referir a relação pertinente ou não entre Signo e Objeto, encontramos: o ícone, que se caracteriza pelo signo com semelhança ao objeto representado; o Índice representa a referência ao objeto representado, sem qualquer interferência nele; e o Símbolo, que se caracteriza quando há uma convenção em uma comunidade.

Analisando a fotografia, as referências de uma manga só e drapejados na foto acima, remetem a trajes gregos, caracterizando-se pelo Ícone; o branco simboliza a pureza, e reflete em um tecido “limpo” de informações (como estampas), caracterizando-se por índice; e o símbolo está na cor do vestido na foto acima, que representa a paz, a pureza.

Nas relações entre Signo e Interpretante, encontramos: o rema que se compõe por o que é o Signo, e sua utilidade, o uso que fazem dele; o Dicente (dissígno) corresponde ao signo de fato, a criação de uma teoria quando o rema é desconhecido; e o argumento é um signo de razão, corresponde a um juízo, o fato é verdadeiro no silogismo.

Analisando a fotografia, o rema está presente na foto pelo uso que a atriz e a modelo fazem do vestido, mediante as ocasiões do uso, e os conjuntos como, por exemplo, os acessórios utilizados, demarcando isso; o dissígno compõe-se pelo modo que cada uma das pessoas da foto utilizou o vestido em uma determinada ocasião, com diferentes acessórios, fazendo a sua própria interpretação de uso, e de que ocasião adequada a este, o que seria diferente, caso o vestido viesse com referências do tipo: vestido de gala ou vestido “esporte”.

 

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USE OU ABUSE DESSE CONCEITO

Na construção de um signo que tivesse materiais alternativos como matéria-prima, foi desenvolvido um protótipo de uma bolsa carteira com (entre outros materiais), camisinhas que não passaram no controle de qualidade, que perderam a validade ou que foram apreendidas em contrabando, como material reciclável. A idéia da utilização dessa matéria-prima foi baseada nos trabalhos da artista plástica Adriana Bertini, que vem desenvolvendo vestidos e outras artes com camisinhas há 12 anos, e expondo pelo mundo; tendo como principal objetivo, além da sustentabilidade por se tratar de um material reciclado, conscientizar as pessoas do uso dos preservativos, principalmente quanto à AIDS. O trabalho é feito a partir da reelaboração dos preservativos feitos de látex, dando novas cores e texturas a esses, moldando-os em diferentes formas, além disso, ela conta com o trabalho de pessoas que vivem com AIDS e estão desempregadas.

Segundo Rampazzo¹, o reaproveitamento causa uma reflexão nas pessoas, Adriana Bertini preocupa-se com aquestão do contexto social, em denunciar, instigar, sugerir e ajudar uma sociedade através da arte.

A escolha da bolsa carteira como protótipo implica na relação de importância que a bolsa tem por ser tão indispensável quanto o uso do preservativo. Não só como uma maneira de incentivar a prevenção às doenças sexualmente transmissíveis, mas também de afirmar a indispensabilidade, de “quebrar” o receio, vergonha ou preconceito que as pessoas têm em falar, tocar e até mesmo usar a camisinha; como se o preservativo oferecesse ou a opção de usá-lo, ou de abusar da sua utilidade, como a própria utilização na bolsa. A parte ecológica está no reaproveitamento do material, pois uma camisinha demora cerca de 300 anos para se decompor, ainda que reaproveitando somente camisinhas que não passaram no controle de qualidade, que foram apreendidas em contrabando e que perderam a validade, não cessaria com o estrago ambiental, mas é uma maneira de reduzir e estimular as pessoas a desenvolverem alternativas para reciclar.

A própria utilização do preservativo, implica em questões de uso presentes na teoria Semiótica. Suas representações implicam quanto ao signo e o objeto. A forma arredondada do material predisposto na bolsa com o centro repuxado para o interior desta remete a uma camisinha amarrada, como se esta já tivesse sido usada, caracterizando-se pelo ícone; o fato de o preservativo apresentar a coloração verde remete à natureza, como se a matéria-prima fosse tirada dessa de modo a preservá-la, caracterizando-se pelo índice; e o símbolo está presente na própria utilização da camisinha, seu uso é comum a todas as comunidades, representando a preservação assim como o verde remete ao ecológico, à preservação da natureza.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Independente de a linguagem ser verbal ou não-verbal, o importante é que a mensagem seja transmitida e que haja compreensão, independente da interpretação feita, pois na Semiótica americana é aceitável o pragmatismo, as questões de uso que cada um faz do Signo.

Devemos denotar a importância da Semiótica nos diversos campos de estudo, neste, referindo-se à Moda, sendo importante na propaganda, na busca de atingir o público alvo, de dar uma significação a cada característica da peça de roupa, por exemplo, nos detalhes que ela possui, e também no conhecer do seu público e das suas pretensões de modo satisfazê-lo, de quebrar preconceitos e “tabus” feitos por estes.

Com a mesma finalidade tem o desenvolvimento do protótipo, que pretende transmitir a idéia de preservação, não só da natureza, mas de si mesmo.

 

 

REFERÊNCIAS

COELHO NETTO, J. Teixeira. Semiótica, informação e comunicação: diagrama da teoria do Signo. São Paulo: Editora Perspectiva, 1980.

FIORIN, José Luiz; SAVIOLI, Francisco Platão. Para entender o texto: leitura e redação. 16ª ed. São Paulo: Editora Ática, 1996.

 


¹Professora Doutora Loris Graldi Rampazzo da Universidade Estadual Paulista (UNESP) e da Universidade São Judas Tadeu.

 

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